Vítimas de violência doméstica: mecanismo de sobrevivência pode levar à morte

Estudo da Universidade do Porto, Lusófona do Porto e do Michigan (EUA)

27 maio 2019
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As mulheres vítimas de violência doméstica continuada e severa desenvolvem um mecanismo de sobrevivência para não serem maltratadas que aumenta o risco de desenvolverem doenças cardiovasculares, diabetes, hipertensão e cancro, revela um estudo.
 
Segundo os resultados do estudo, ao qual a agência Lusa teve acesso, o stress prolongado e sem controlo leva ao aparecimento de doenças que podem conduzir à morte.
 
O estudo foi realizado por investigadores das universidades Lusófona da Universidade do Porto e da Universidade do Michigan, EUA, e envolveu 160 mães e 160 crianças portuguesas sinalizadas por violência doméstica, 80 das quais a viver com o agressor e as restantes em casas abrigo.
 
A investigação visou perceber as diferenças das mulheres e das crianças nestes dois contextos distintos e entender, do ponto de vista fisiológico, psicológico e social, qual é o impacto de continuar a viver com o agressor e o que significa estar numa casa abrigo.
 
Nas mulheres, os investigadores analisaram os níveis de cortisol, hormona associada ao stress que tem efeitos positivos na regulação da resposta imunitária e no metabolismo, que normalmente aumenta após o acordar.
 
Quando isso não acontece é “um indicador de que o sistema de stress não está a funcionar corretamente”, disse à agência Lusa o investigador Ricardo Pinto, da Universidade Lusófona do Porto, adiantando que apenas 40% das mulheres avaliadas tinham uma libertação normal de cortisol.
 
A desregulação da libertação de cortisol está correlacionada com situações de violência severas e frequentes e observa-se nas mulheres que vivem com o agressor, disse o investigador.
 
Este dado é explicado no estudo como fazendo parte de um mecanismo de sobrevivência em que as mulheres mais maltratadas recorrem a comportamentos, como a inação, apatia ou evitamento, similares ao comportamento de fuga ou luta quando se está perante uma ameaça.
 
Se por um lado estes comportamentos são adaptativos na medida em que a mulher “finge-se de morta” para não ser maltratada, por outro lado, esta “desregulação persistente no tempo é um fator de risco para o aparecimento de doenças, nomeadamente diabetes, infeções crónicas e doenças mais mortais, como as doenças cardiovasculares e o cancro”, disse Ricardo Pinto.
 
Ricardo Pinto defendeu que estes resultados devem alertar a comunidade para que se olhe para a violência doméstica também como “um fator de risco de morte a longo prazo” e não apenas pelo número de mortes e pelas mazelas físicas que deixam nas mulheres.
 
O estudo verificou ainda que, ao contrário das mulheres que viviam em casa-abrigo, que estavam mais ajustadas em termos psicológicos, fisiológicos e sociais do que as que viviam com o agressor, as crianças revelaram mais problemas emocionais e comportamentais, o que poderá em parte ser explicado pelas mudanças de contexto de vida destas crianças.
 
ALERT Life Sciences Computing, S.A.
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